birth

Ajudar é não perturbar / To help is to not disturb

Originally published on umamaenasceu.org

English version below

«O parto é um processo fisiológico involuntário; não pode ser ajudado, mas pode ser perturbado.» – Michel Odent (citado de memória do curso Paramana Doula, Janeiro de 2011).

Enquanto que algumas pessoas afirmem que para muitos de nós humanos, o parto pode ser um evento emocional e espiritual, este é incontestavelmente um acto fisiológico.

Muitas vezes falamos de mulheres que são «assistidas» no processo de dar à luz ou mesmo é utilizada a frase «o dr. X fez o parto». Mas como a citação de Michel Odent demonstra, é enganador pensar ou dizer que uma mulher pode ser ajudada a dar à luz. De facto, assumir essa perspectiva pode mesmo causar mais problemas do que trazer resultados positivos.

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Pelo contrário, talvez seja mais seguro afirmar que a melhor forma como podemos apoiar um parto é ajudando a criar as condições nas quais as mudanças fisiológicas necessárias possam acontecer no corpo feminino. Isto significa limitar as perturbações que interferem com estes processos.

De forma a fazer isto, é necessário ter um conhecimento básico da fisiologia do parto.

Ocitocina

True Love

O parto depende da produção de ocitocina. A ocitocina, conhecida como a hormona «tímida», pois não aparece perante estranhos ou observadores, também está envolvida noutros comportamentos íntimos, tais como a erecção e lubrificação vaginal do acto sexual; e o reflexo de ejecção do leite da amamentação. A ocitocina traz ondas de exaltação e sentimentos de amor.

No parto, o seu principal papel é fazer com que o útero contraia com eficácia.
O corpo de uma mulher estará tanto mais capaz de produzir ocitocina quanto ela se sentir segura, confortável, quente e relaxada.

Adrenalina
Se o corpo da mãe começar a produzir adrenalina, isto impede o seu corpo de produzir ocitocina.

As hormonas da família da adrenalina são produzidas quando nos sentimos com frio, assustados ou observados.

Mais ainda, o estado de adrenalina é contagioso. Portanto, se alguém presente na mesma divisão que a parturiente se sentir ansioso ou com medo, é provável que a mãe, especialmente devido à sua sensitividade aumentada durante o trabalho de parto, se aperceba. As suas contrações podem abrandar, tornar-se menos eficientes ou parar.

Neocórtex
Um outro factor crucial numa tranquila progressão do trabalho de parto é a supressão da parte racional do cérebro humano chamado neocórtex. É neste ponto que os seres humanos diferem de outras espécies mamíferas, que na sua maior parte conseguem parir sem complicações ou intervenções.

Enquanto que o cocktail de hormonas e endorfinas necessário para o parto é libertado das profundezas das estruturas arcaicas do cérebro, o neocórtex faz com que sintamos inibições.

Idealmente, quando o trabalho de parto se encontra estabelecido, o neocórtex deve parar de funcionar. É por isto que uma mulher, quando imersa num avançado trabalho de parto, se encontra claramente num estado alterado de consciência. Pode parecer estar «noutro planeta» e pode comportar-se de formas que não são «socialmente aceitáveis».

No entanto, existem algumas condições que estimulam o neocórtex e, logo, impedem a mulher em trabalho de parto de entrar neste estado de consciência primal necessário ao nascimento.

Linguagem
Falar com uma mulher enquanto esta se encontra em trabalho de parto pode ser uma das formas mais fáceis de a fazer sair do estado alterado de consciência e levar de volta à sua mente racional. Fazer-lhe perguntas ou usar linguagem racional como «9cms de dilatação» são algumas das interferências mais comuns nestas circunstâncias. Contudo, isto acontece de forma rotineira na maioria dos partos.

De notar que, nas fases iniciais do trabalho de parto quando o cervix começa a abrir e as contrações são mais curtas e menos intensas, muitas mulheres conseguem falar e interagir com outros sem que isso afecte a progressão do parto.

Se, quando nas profundezas da «partolândia», a mãe é trazida de volta à sua mente pensante, ela pode subitamente sentir-se preocupada acerca do que as pessoas que a rodeiam estão a pensar ou se estará a «fazer a coisa certa».

Pelo contrário, pode-se manter o silêncio na sala onde decorre o parto e, se for necessário utilizar linguagem, ela pode ser reduzida a umas poucas palavras simples ou substituída por comunicação não-verbal.

Luz

Spirit of diwali : Diyas

A hormona melatonina, que é libertada na escuridão, reduz a actividade do neocortex. Portanto, não é apenas por motivos românticos que faz sentido dar à luz num ambiente pouco iluminado, na verdade, esta condição ajuda a mulher a entrar num estado mais instintivo.

Sensação de ser observado
Não é difícil compreender que é mais provável que nos sintamos inibidos se soubermos que alguém nos está a observar. Ainda mais se estiver a acontecer algo tão íntimo como um parto ou uma relação sexual, que apenas fluem suavemente se estivermos num relaxado estado de ocitocina.

Se uma mulher a dar à luz se sente obervada, é mais provável que pense, «Será que estou a fazer a coisa certa?», «Será aceitável fazer estes barulhos?», «Será que agora posso começar a puxar?».

Se o seu neocortex estiver desligado e ela estiver a funcionar a partir do seu cérebro de mamífero, ela não vai ter estes pensamento mas sim será invadida pela pura fisicalidade de parir o seu bebé.

De forma a que a mulher não se sinta observada, seja quem for que estiver presente no parto deve estar plenamente consciente do impacto da sua própria presença. Estar presente sem observar é uma arte.

Michel Odent e Liliana Lammers partilham a imagem da «parteira experiente sentada num canto a tricotar»: a sua presença transmite confiança à mulher em trabalho de parto; a própria parteira não necessita de observar activamente pois consegue determinar o que está a acontecer escutando com gentileza; e a actividade repetitiva e meditativa de tricotar mantém-na num calmo estado de não-adrenalina.

Ambiente ideal
O papel do acompanhante de parto é ajudar a criar o ambiente ideal para um parto sem complicações. Isto significa criar as condições para que a mãe possa entrar num estado de libertação de ocitocina e reduzir os factores que possam estimular a produção de adrenalina e o neocortex.

Quanto menor o número de pessoas envolvidas, mais fácil será evitar distúrbios. É vital que a mãe se sinta completamente à vontade com todas as pessoas presentes. Os acompanhantes de parto precisam eles mesmos de se encontrar num estado de relaxamento e de ser guardiães protectores do espaço sem, contudo, observarem de forma evidente.

Todos os presentes num parto ajudarão a mãe ao limitar a linguagem ao mínimo; ao diminuir a intensidade das luzes assim que a mulher entre num estado mais avançado do trabalho de parto; e ao assegurar que a mãe se sente segura e quente durante todo o processo.

Cada mulher e cada parto são únicos. No entanto, actualmente, apenas uma pequena percentagem das mulheres dá à luz fisiologicamente. Quando um parto é rotineira ou inconscientemente perturbado, é menos provável que se desenrole de uma forma simples e sem problemas.

Ao dar atenção à criação destas condições tão necessárias, mais partos progrediríam com tranquilidade e registar-se-ia menor necessidade de intervenção.

Feliz Parto!

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Birth is an involuntary, physiological process; it cannot be helped, but it can be disturbed.” ~ Michel Odent (quoted from memory at Paramana Doula course, Jan 2011).

While some would argue that for many of us humans, birth can be an emotional and spiritual event, it is undeniably a physiological one.

We often talk about women being ‘assisted’ in childbirth, or even use the phrase ‘Dr. X delivered the baby’. But as the quote from Michel Odent demonstrates, it is misleading to think or say that a woman can be helped to give birth. In fact, to take that perspective can actually cause more problems than it can bring positive results.

Rather, it might be safer to say that the best way in which we can support a birth is to help create the conditions in which the necessary physiological changes can take place in the woman’s body. This means limiting the disturbances that interfere with these processes.

In order to do this, it is necessary to have a basic understanding of the physiology of birth.

Oxytocin
Birth depends on the production of oxytocin. Oxytocin, known as the ‘shy’ hormone because it doesn’t appear amongst strangers or observers, is also involved in other intimate behaviours, such as causing erection and vaginal lubrication for sexual intercourse; and in the milk ejection reflex of breastfeeding. Oxytocin brings waves of elation and feelings of love.

In birth, its primary role is to cause the uterus to contract effectively.

A woman’s body will be best able to produce oxytocin if she feels safe, comfortable, warm and relaxed.

Adrenaline
If the mother’s body starts to produce adrenaline, this prevents her body from producing oxytocin.
Adrenaline family hormones are produced when we feel cold, scared or observed.

What is more, the adrenaline state is contagious. So, if someone in the same room as the birthing woman is feeling anxious or afraid, it is likely that the mother, especially given her heightened sensitivity during labour, will pick up on this. Her contractions may slow down, become less effective, or stop.

Neocortex
Another crucial factor in the smooth progress of labour is the suppression of the rational part of the human brain called the neocortex. This is where human beings differ from other mammal species, who for the most part can give birth without complication or intervention.

While the necessary cocktail of hormones and endorphins for birth are released from deep within the archaic structure of the brain, the neocortex causes us to feel inhibitions.

Ideally, in established labour, the neocortex should stop functioning. This is why a woman, when in the throes of advanced labour will be in a noticeably altered state of mind. She may seem as if she is ‘on another planet’ and can behave in ways that are not normally ‘socially acceptable’.

However, there are certain conditions that stimulate the neocortex, thereby preventing the labouring woman from entering into the primal state of mind necessary for birthing.

Language
Talking to a woman during labour or birth can be one of the easiest ways to bring her out of her altered state and back into her rational mind. Asking her questions or using rational language such as ‘9cm dilated’ are some of the most common interferences in these circumstances. Yet, this routinely occurs at most births.

Please note that in the early stages of labour when the cervix is starting to open and contractions are shorter and less intense, many women can talk and interact with others without this affecting her progress.

If, when in the depths of ‘labour land’, the mother is brought back into her thinking mind, she may suddenly feel worried about what other people around her are thinking or whether she is ‘doing the right thing’.

Instead, silence can be kept in the birth room and, if language does need to be used, it can be reduced to a few, simple words or replaced with non-verbal communication.

Light
The hormone melatonin, which is released when in darkness, reduces neocortical activity. So it is not just for romantic reasons that it makes sense to birth in a dimly or candle lit room, it actually helps the woman enter into a more instinctual state.

Feeling observed

Big Brother is Watching

It is not difficult to comprehend that we are more likely to feel inhibited if we know someone is watching us. Even more so when we are engaged in an intimate event like birth or sex, which only flow smoothly if we are in a relaxed oxytocin state.

If a birthing woman feels observed, she is more likely to start thinking, ‘Am I doing this right?’, ’Is it ok to make these noises?’, ‘Can I start pushing now?’

If her neocortex is switched off and she is functioning from her mammalian brain, she will not be engaging in these thoughts but will be overcome by the sheer physicality of birthing her baby.

In order for the woman not to feel observed, whoever is at the birth needs to be conscious of the impact of his/her own presence. There is an art to being present without observing.

Michel Odent and Liliana Lammers share the image of the ‘experienced midwife sitting in a corner knitting’: her presence is reassuring to the woman in labour; the midwife herself need not actively observe as she will be able to tell what is happening by gently listening; and the repetitive, meditative activity of knitting keeps her in a calm non-adrenaline state.

Optimal Environment
The role of the birth companion is to help create the optimal environment for a straightforward birth. This means creating the conditions in which the mother can enter into a state of oxytocin release and to reduce the factors that will stimulate adrenaline production and the neocortex.

The fewer people that are around, the easier it is to avoid disturbances. It is vital that the mother feels completely at ease with anybody who is present. Birth attendants needs to be in a relaxed state themselves and to be a protective guardian of the space without noticeably observing.

Anyone present at a birth will serve the mother well by keeping language to a minimum; dimming the lights when the woman has entered into the more advanced stages of labour; and ensuring that the mother feels safe and warm throughout.

Every woman and every birth is unique. However, these days only a small percentage of women are giving birth physiologically. When a labour and birth is routinely or unconsciously disturbed, it is less likely to unfold in a straightforward way.

If attention is given to creating these necessary conditions, more births would progress smoothly and there would be less need for intervention.

Happy Birthing!

2 thoughts on “Ajudar é não perturbar / To help is to not disturb”

  1. Excellent post! I’ve attended many births, and prefer to say that I support the family. I try to be as invisible as possible, but always available if a question needs asking/answering. A speaker at a midwifery conference once said “I’ve seen doulas BE the intervention”. This made a profound impression on me. I warn clients that if I’m sitting in the corner knitting, I’m not ignoring them, I’m staying out of the way.

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